Não tinha lugar para ir, não tinha um lugar para correr e muito menos para me esconder. Soltei meus joelhos e os forcei a subir as escadas. O vento era gelado demais e fazia meu cabelo voar. Sentei-me no chão molhado e frio e deixei minha mente vagar.
Voltei para a época em que minha mãe ainda estava comigo e éramos uma família. Mas acho que voltei ao dia errado. Mamãe havia acabado de chegar do hospital e não me parecia nada feliz com o resultado. Ambos me excluíram da conversa sobre a doença dela, até parecia que eu não fazia parte daquela família que já foi perfeita um dia. Aparentemente perfeita, na realidade.
Ela estava com um tumor no lóbulo frontal e uma cura seria um milagre. Ela estava morrendo e não havia nada que eu pudesse fazer para parar o avanço desse tumor. Os dias passavam e minha mãe definhava cada vez mais, era como um suicídio inevitável. O corpo dela estava atacando-a com uma força absurda. Meu pai começou a beber e ser totalmente negligente comigo e até mesmo com minha mãe.
Com o passar do tempo, minha mãe mal conseguia sair de sua cama. Só saia dali para ir até a varanda e apreciar as estrelas. Era o que ela mais amava fazer e por mais que aquilo partisse meu coração em mil pedaços, eu a acompanhava. Passávamos horas sentadas ali, admirando cada estrela que aparecia ao anoitecer. Eu sempre fazia o mesmo pedido às estrelas, pedia que minha mãe ficasse mais tempo comigo. Sentia como se eu não tivesse aproveitado o tempo que tive com ela enquanto ela era saudável e sã.
E aí vem a pior parte de tudo. Meu pai trabalhava e chegava tarde em casa. Principalmente porque saía para beber e tentar esquecer dos problemas que o aguardavam em casa. Cheguei em casa na hora do crepúsculo, o céu estava lindo. Não ouvi barulho algum. Fui ao quarto de minha mãe e ela não estava deitada em sua cama, havia apenas um envelope ali. Eu não acreditei no que estava lendo e confesso que demorei para assimilar cada palavra, cada letra daquela carta. A caligrafia era borrada e tinham gotas de lágrimas manchando algumas delas.
“ Muita coisa mudou desde que meu cérebro mudou. Não agüentava mais ver seu sofrimento interminável, me desculpe. Não abra a porta do banheiro.
P.S. Eu te amo.”
Eu não a obedeci e corri para o banheiro. O caminho do quarto ao banheiro era interminável e mais parecia uma maratona. A porta estava trancada por dentro e eu batia nela enquanto gritava o nome de minha mãe. Meus esforços foram em vão. Fiquei sentada do outro lado da porta, chorando. As lágrimas escorriam de meus olhos como uma queda d’água.
Lutei comigo mesma e tentei arrombar a porta mais uma vez. A maioria dessas tentativas foram em vão, mas no final a porta desistiu e me deixou abri-la. Ou simplesmente teve pena de mim. E eis a visão que vi. Minha mãe estava pendurada pelo pescoço por uma gravata. A gravata de meu pai que ela mais odiava e ele teimava em usar. Ela tinha um sorriso nos lábios. Talvez quisesse mostrar que estava feliz por acabar com o seu sofrimento, mas eu tenho certeza que ela fez isso por mim. Para que eu não tivesse uma última visão tão perturbadora. Acho que não deu muito certo, eu nunca mais me esqueceria dessa cena e a veria pendurada todas as vezes que fechasse meus olhos.
O tempo foi passando e meu pai foi apenas piorando. Entristecia-me vê-lo daquele jeito, se afundando cada vez mais em um poço de solidão, tristeza e álcool. Eu queria ajudá-lo de alguma maneira, mas ele se esquivava cada vez mais de mim. Aprendi a me virar sozinha e a ser sozinha. Com o passar do tempo, me tornei algo parecido com ele.
A dor era latente e nunca ia embora, como se eu estivesse com uma faca em meu coração o tempo todo. Eu tinha apenas quinze anos e minha vida já era conturbada desse jeito. Eu queria fugir para longe daquele lugar que me deprimia. Dormia na cama dos meus pais quando meu pai não estava em casa. Era uma forma de me aproximar de minha mãe. Só queria dormir ali para sempre...
Voltei a mim quando a chuva voltou, forte demais para agüentar ali. Estava tão anestesiada e entorpecida que o frio mal me incomodou. Caminhei pelo telhado do prédio. Andei em círculos e brinquei com a água que se empoçava lá encima. Tive uns minutos de infância. A infância que a vida não quis me dar.
Andei até a beira do prédio e olhei a vida passando lá embaixo. Me perguntei o que motiva as pessoas à viverem e não consegui encontrar um resposta convincente. Fechei os olhos e senti a chuva bater em meu rosto enquanto o vento fazia meu cabelo chicotear forte. Muitas vezes ele batia no meu rosto e isso me causava dor, mas eu não estava me preocupando com isso.
Voltei minha atenção para vida lá embaixo e vi minha mãe. Ela me olhava com um olhar triste e parecia que abria os braços para mim, lentamente. Fiquei feliz em vê-la e cheguei ainda mais perto da beira do prédio. Agora ela me encarava com um olhar de reprovação, como se dissesse para eu não fazer aquilo. Eu dei mais um passo. Se desse mais um passo, encontraria minha mãe. Olhei para trás e me despedi mentalmente de meu pai. Só espero que ele fique bem depois disso tudo.
Fechei os olhos e dei o último passo. O vento batia mais forte ainda em meu rosto enquanto eu descia os andares em alta velocidade. Abri os olhos e minha mãe estava chorando. Abri meus braços e abracei com força.